Tentativas de Esgotar um Lugar

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Inscrições abertas de 03/03/2015 a 31/03/2016 às 19:00 .

O MAES, por meio da Secretaria de Estado da Cultura, desenvolve atividades e exposições que pretendem estimular a sensibilidade e o encontro de olhares, compreendendo a arte, tão quanto a experiência, como força motriz para o exercício da cidadania e compartilhamento de subjetividades.

Dessa forma, alinhado à missão de fomento ao desenvolvimento artístico e cultural, o Edital 11/2014 - Bolsa em

Site: http://maesmuseu.wixsite.com/tentativas http://maesmuseu.wixsite.com/tentativas

Descrição

A partir de outubro de 2015 a exposição TENTATIVAS DE ESGOTAR UM LUGAR, reuniu no MAES trabalhos de 6 jovens artistas capixabas que lidaram em suas pesquisas, ao longo do Bolsa Ateliê da Secult-ES, com perguntas e abordagens semelhantes a do experimento literário de Perec: “ O que acontece quando nada acontece ? ” A aparente simplicidade da questão faz-se acompanhar de uma exigência à percepção, para se conseguir ver e extrair sentido daquilo que se mostra mais habitual e “insignificante” ao nosso olhar. Os projetos dos artistas demonstram essa sensibilidade na construção de relações complexas com um lugar, seja o plano do desenho, ou cidades desconhecidas, monumentos turísticos, paisagens culturais ou o próprio endereço.

ANDRÉ ARÇARI se apropriou do material gravado pelas câmeras de monitoramento em seu prédio para compor narrativas aparentemente ordinárias. O vídeo manifesta um olhar voyeur e muitos dos seus planos poderiam ser descritos pelas frases prosaicas do livro de Perec, já que também apresentam imagens corriqueiras como num “inventário de coisas estritamente visíveis”, “micro-eventos”, ações simultâneas e anônimas. Em sua sala, o artista expôs ainda a captura em tempo real das imagens do sistema de segurança do próprio MAES, produzindo por este deslocamento um acesso imprevisto à instituição (inclusive com cenas em tempo real de sua área administrativa em uso rotineiro) e analisando criticamente esta produção imagética pretensamente neutra. O trabalho revela dimensões invisíveis do lugar e como são estruturados seus aparatos de controle e mapeamento do espaço institucional. As imagens do circuito interno de vigilância do museu reconstituem o que seria sua paisagem e tornam público um ponto de observação amplo e privilegiado, implicando na consciência política dos usos da imagem. Desta sala torna-se possível ver todos os espaços da exposição, o trabalho configura uma espécie de mirante dentro do espaço do museu. Em estrutura quadriculada, o monitor oferece imagens e descrições do lugar inteiro.

Fixar o instantâneo, abordar diretamente o cotidiano, perscrutar enredos possíveis e produzir narrativas a partir das vivências foram estratégias utilizadas por duas artistas viajantes, cujas práticas e registros nos lembram a frase de Cildo Meireles, para quem o artista, “como o garimpeiro, vive de procurar o que não perdeu” e também confirmam a anotação de um louco num caderno, recolhida por Manuel Réja em 1907: “Eu viajo para conhecer a minha geografia”. É também curiosa a passagem no livro de Perec em que ele conta ter mirado pela janela e se interessado mais pela imagem do café refletida, com sua própria imagem escrevendo estampada no vidro. Parece inevitável que em alguns momentos mesmo a escrita descritiva ganhe contornos de “diário”. As relações que BeatriZanchi e Polliana Dalla Barba estabelecem com os lugares que visitam são sempre da ordem da subjetividade, tanto na qualidade das experiências quanto na “escrita imagética” que constroem. BEATRIZANCHI percorreu cidades com nomes de santos pelo interior do Espírito Santo. A partir do convívio intenso com os lugares, suas pessoas e histórias, a artista tece em seus diários uma série de desenhos, colagens, ensaios fotográficos e escritos em que se fundem referências da arte popular à sua mitologia pessoal. Nos diários, torna públicas as especulações mais íntimas que lhe evocam as viagens e realiza séries de auto-retratos por todas as localidades. Já POLLIANA DALLA BARBA viajou por diferentes cidades brasileiras e sul-americanas para produzir relatos afetivos, coleções de vestígios incomunicáveis e fotografias que reiteram a condição fragmentada das experiências que viveu em trânsito. A artista organiza diagramas visuais em que reúne materiais distintos para narrar uma incursão ao território de Bolivamar, terra de ninguém entre Bolívia e Peru, por exemplo. Ou a história da frustração de não ter participado de uma viagem em família à Itacaré, a última que seu primo faria antes de morrer num acidente de carro; anos depois, visitando a mesma praia que vemos em fotos familiares, a artista produz registros de uma ausência. Organiza também uma coleção do mesmo cartão postal de um monumento a Simon Bolivar, comprado em diferentes cidades do Peru, um acervo cuja visualidade testemunha menos que a ideia de sua circulação e disseminação como discurso. Tentativas como as destes artistas, mais que um esgotamento de determinada realidade, tornam-se por fim tarefas de fundação e construção de um outro lugar, pela linguagem.

Tentativas como traçar linhas que interceptem o espaço e reconfigurem a experiência correspondem aos esforços de viajantes que se deslocam sem saber ao certo o que esperar de seus destinos, delineando um trajeto que se forma na mesma medida em que é experimentado. Os desenhos de SANDRO NOVAES são mapeamentos de superfícies – papel ou arquitetura – por meio de um vocabulário formal restrito à linha. A partir desta unidade e de seus prolíficos arranjos o artista constrói presenças, percursos e projeções que se desdobram pelos planos. O lugar é ocupado e reestruturado pelas fábulas das linhas. Nesse sentido, podemos pensar que nossa percepção mostra-se mais responsável em moldar as espacialidades que ocupamos do que o contrário, como se poderia imaginar. A partir de registros fotográficos e em vídeo do Cristo Redentor da cidade do Rio de Janeiro, GABRIEL MENOTTI produziu versões em escala reduzida deste monumento – religioso, turístico e político – utilizando tecnologias de scanner e impressão 3D. Explorando a aura excessiva do Cristo, o artista investiga as perdas e preenchimentos que se operam nesse significativo processo de reprodutibilidade, integrado por aspectos de tradução e prototipagem. Quando o virtual adquire materialidade, curiosamente, o resultado escultórico não apresenta correspondência direta à sua origem imagética. Em outro trabalho, o visitante pode observar-se junto a uma aparição virtual de um Buda na sala expositiva.

Tentativas de leitura de um espaço, muitas vezes, enfrentam os limites da linguagem ou dependem da consciência de sua historicidade, nem sempre evidente. Atentando à invisibilidade a que estão submetidas muitas das questões ligadas à história da escravidão no Brasil, sobretudo suas mutações e sobrevivências no tempo presente, CHARLENE BICALHO tem investigado o tema sob a perspectiva de sua própria condição de mulher negra. Em sua sala escura, os visitantes foram convidados a pegar lanternas para ver nos relicários mechas de cabelos que recolhe das pessoas, espelhos e fotos da artista em diferentes momentos e penteados, vestígios identitários e elementos de matriz cultural africana que são articulados em torno a uma projeção de vídeo num alguidar, artefato ritualístico do candomblé. Charlene Bicalho reflete sobre uma narrativa que se desenrola tanto em sua própria pele quanto também integra uma longa história de exploração de um segmento étnico e social no país, desde sua invenção.

Permeando as anotações mais descritivas do livro, Perec repete em alguns momentos, como que resignado, “Lassitude dos olhos, lassitude das palavras”. Diante do inesgotável da experiência, as tentativas se firmam admitindo sempre a circunstancialidade dos gestos e empreendimentos. Por muitas insignificâncias são constituídos os lugares que habitamos ou visitamos, seja com o corpo, com os olhos, com a memória ou com a imaginação.

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Museu de Arte do Espírito Santo Dionísio Del Santo - MAES

Espaço dedicado à formação, produção, difusão e preservação da arte feita no Espírito Santo. Está entre suas finalidades valorizar seu acervo assim como promover o estudo, a produção e a difusão da arte, com ênfase nas expressões locais, em conexão com as manifestações realizadas em nível nacional e internacional.

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